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A raquete 138: Uma estória de Moscatel e Bastardinho

Decorreu na Casa Museu de José Maria da Fonseca e, como habitual, gerou entusiasmo e expectativa. O quarto leilão do século XXI, da guardiã-maior de Moscatel de Setúbal, foi um sucesso ao superar as previsões, rendendo um valor total de 67 mil euros.

TEXTO Mariana Lopes

A família Soares Franco estava representada pelas suas sexta e sétima gerações. António e Domingos, da primeira, e António Maria, Francisco e Sofia, da segunda. À Casa Museu, no centro da vila de Azeitão, começavam a chegar os participantes. Era a noite de 25 de Outubro, uma das primeiras mais frescas depois do calor que insistia em não cessar, mas a elegância dos presentes não parecia ter sido afectada por isso. No cocktail que antecedia o evento principal, sentia-se o nervoso miudinho, no burburinho que se ouvia a sair das pequenas tertúlias de copo em riste. Alguns repetentes, outros estreantes, mas todos seguros de não voltar para casa de mãos vazias.
Assim confiantes entravam, mais tarde, na impressionante Adega dos Teares Novos, onde estagiavam os vinhos tintos da empresa, esperando que alguém os resgatasse de um descanso que para eles já parecia eterno. Nesse dia, tinham a companhia de 120 pessoas que jantavam com a alegria ansiosa de quem já não pode esperar mais. Alegre e ansioso estava também António Soares Franco, presidente da José Maria da Fonseca (JMF), que abria as hostilidades, com um discurso breve: “Fazemos este leilão em homenagem aos 100 anos do nosso pai Fernando, que nasceu em 1918. O facto de o Moscatel Roxo ainda existir, deve-se a ele. Na Quinta de Camarate havia uma vinha dessa variedade com menos de um hectare, num solo de calcário branco que parecia quase giz e, nessa altura, ninguém na região queria Moscatel Roxo, porque, como amadurecia muito cedo, as abelhas comiam as uvas todas. Mas o meu pai teimou e disse ‘não vou deixar morrer esta casta que mais ninguém tem, temos uma responsabilidade’. E trouxe varas daquela vinha para plantar noutras. Hoje, numa região que tem cerca de 40 hectares desta variedade, nós e os nossos fornecedores temos 25. É uma honra lembrar assim um homem que se dedicou desta maneira à viticultura.”
Estava explicada a razão do protagonista da noite, um Moscatel Roxo de Setúbal Superior de 1918, materializado em 184 garrafas (para marcar os 184 anos da empresa), das quais 100 se puseram à mercê dos licitantes. Também um Bastardinho de Azeitão com mais de 80 anos estava em jogo naquela noite, uma relíquia de apenas 40 exemplares.

A dança das raquetes
Igualmente alegre, mas francamente mais descontraído, estava Domingos Soares Franco, que, com um discurso mais informal que o do irmão, animava o público: “Essa vinha de Moscatel Roxo, de que o meu irmão falou, tem uma inclinação tal que, para a subir, tenho de pôr os pés e as mãos no chão. Uma subida a quatro patas…”, e todos se riam. “Outro vinho que vai ser aqui leiloado é o Apothéose, um Bastardinho. Encontrei um casco que… bem, eu quando vou para a guerra (nunca fui, mas se fosse…)”, e gargalhadas brotavam, “é para ganhar. O casco era de tal maneira espectacular que nem o conseguia descrever. São 20 litros, 40 garrafas Atlantis, com banho de platina, das quais decidimos lançar uma por ano.”
Pouco depois, dava-se início ao leilão. Os 35 lotes, de 126 garrafas, eram apresentados e leiloados pela empresa Palácio do Correio Velho, na voz dos Brito Ribeiro, pai e filho que disso fazem vida pelo país fora. A José Maria da Fonseca, detentora de um património único de Moscatéis de Setúbal, colocava também em praça diversas colheitas antigas deste e de aguardente. O primeiro lote, de uma garrafa de Superior 1918, era fechado por 900 euros, no momento em que todos se apercebiam que a fasquia estava alta.
Continuava a dança de raquetas, num baile em que o leiloeiro era o condutor e os licitantes se deixavam conduzir ao sabor do Moscatel que tinham no copo. “À minha frente, 1400, vendido!”, “1800, vendido à senhora da raquete 182!”, “Tenho dois mil aqui”, “Vendido, por 2600!”, batiam-se palmas em valores semelhantes. Lote 35. “Chamamos a vossa atenção para o Apothéose Bastardinho. Vou por em praça por 2800 euros”, os sussurros eram intensos, “2900, tenho. 3 mil euros. 3 e 200 aqui. 3 e 500 ali. 3 e 800 aqui. 4 mil do meu lado direito. 4 e 500 aqui. 4500 euros. E vai uma. 4500 duas. Vou vender aqui, 4500 euros, raquete 138, parabéns!”, uma salva de palmas rebentava na Adega dos Teares Novos e esgares atravessavam o rosto dos mais incrédulos. Era o fim de uma jornada épica.
Pelo meio de um frenesim de final de festa e de cumprimentos entre “adversários”, havia quem pairasse pela adega com um sorriso matreiro. Era Domingos Soares Franco. Eu aproximava-me enquanto pensava na interpelação ideal. Depois de ouvir a minha pergunta, o anfitrião falou: “Um leilão destes é uma ajuda para o Moscatel de Setúbal, um grande pontapé de saída para chegar com mais frequência a valores como hoje chegou. Também o Bastardinho, ao chegar aos 4500 euros, desempenha o mesmo papel. Fiquei muito contente, foi acima do que ambicionávamos e o Apothéose superou todas as minhas expectativas. Talvez pela minha conversa, quem sabe…”

 

Edição Nº20, Dezembro 2018

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