Editorial da revista nº42, Outubro 2020

Enquanto martelo o teclado, já se vão lavando a maior parte dos cestos da colheita de 2020. Como profissional da escrita de vinhos, esta foi a trigésima primeira vindima que acompanhei, percorrendo vinhas e adegas de todo o país. São muitas colheitas, todas diferentes, cada uma com particularidades e perfis de vinhos bem distintos.

Luís Lopes

Fazendo um esforço de memória, recordo-me de todas as trinta e uma vindimas que experienciei, bem como das características mais marcantes dos anos vitícolas a que estão associadas. Posso agrupá-las de muitas e variadas maneiras: as vindimas frescas; as vindimas quentes; as vindimas molhadas; as vindimas secas; as vindimas escassas; as vindimas abundantes; a vindimas precoces; as vindimas tardias. E, claro, posso igualmente categorizá-las em termos da qualidade média dos vinhos a que deram origem. Porém, uma vindima nunca se se integra numa única categoria. Uma dada vindima pode ser, ao mesmo tempo, quente, escassa e precoce, por exemplo. Os anos vitícolas também ficam marcados por uma grande diversidade de factores: as temperaturas médias ou a pluviosidade em fases decisivas do ciclo da videira – abrolhamento, floração, pintor, maturação…; acidentes climatéricos muito localizados (geada, granizo) ou um pouco mais generalizados (escaldão); ou ainda, a maior ou menor incidência de pragas e doenças da videira.  

As variáveis ao longo de um ano vitícola que culmina na colheita são inúmeras, tornando cada vindima completamente diferente da anterior. E sendo certo que assim é, não se torna fácil perceber de imediato a razão pela qual tantos viticultores e produtores de vinho, sobretudo ao longo da última década, escolhem a mesma palavra para definir a vindima que acabaram de viver: atípica. Foi assim em praticamente todas as colheitas desde 2014. Curiosamente, ninguém classificou 2011 como um ano atípico. No final dessa vindima, “excelente” era a expressão que se ouvia de todas as bocas e que desde logo se colou aos vinhos desse ano 

Mas afinal o que é uma vindima “típica, por oposição à “atípica”? Não será, no fundo, uma vindima idealizada? Ou seja, aquela que resulta de um ano em que a chuva caiu na quantidade e época certa, granizos e geadas, pragas e doenças não fizeram grandes estragos, o verão foi ameno, com noites frescas e maturação a decorrer sem pressas, culminando numa colheita genericamente seca, com alguns chuviscos pontuais que refrescaram as uvas, possibilitando colher todos os cachos no momento perfeito de equilíbrio entre açúcar, acidez e taninos. Que maravilha! O problema é que essa vindima perfeita é coisa cada vez mais rara, e talvez tenhamos de nos habituar a uma “tipicidade” feita de excessos climatéricos, estações do ano desnorteadas e, sobretudo, um elevado nível de imprevisibilidade.  

Mas mesmo aceitando esse “novo normal como dado adquirido, não sei como classificar a colheita de 2020, a não ser como a mais insana de que me lembro. Desde logo, porque foi a vindima da covid-19, com tudo o que isso implicou em termos logísticos, económicos, psicológicos, até. Foi uma vindima associada a um ano de desavinho, granizo, oídio, míldio, cicadela, escaldão, desidratação, vagas de calor prolongadas. Foi uma vindima em que as maturações pareciam não querer avançar e depois dispararam quase incontroláveis, perdendo-se a preciosa acidez nas castas mais precoces. Foi um ano de enorme heterogeneidade entre regiões, mas também heterogeneidade na mesma vinha, na mesma cepa, no mesmo cacho. Um ano em que se colheram tintos antes de brancos, uma vindima onde açúcares e ácidos desafiaram a lógica, uma colheita onde, para meu desgosto, a Touriga Nacional deu 10 a 0 à Francesa. 

O ano vitícola e a vindima de 2020 exigiram o máximo de competência, dedicação, esforço, resiliência, por parte de todos aqueles que fazem da vinha e do vinho a sua vida. Um ano atípico? Se atípico significar que, por um lado, não se vai repetir tão depressa e, por outro, que dentro das dificuldades vai originar grandes vinhos, atípico seja. 

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