Notícias Vinho

CHINA, O Império do vinho

By 28 de Janeiro, 2019 Sem comentários

Na China está em curso uma autêntica revolução do vinho, com o número de consumidores e apreciadores a crescer a bom ritmo, estimulando assim o interesse comercial dos países exportadores tradicionais, entre eles Portugal. Isto apesar dos baixos preços praticados e das barreiras de um mercado geograficamente muito vasto, complexo e difícil. Por outro lado, além de importar vinho, a China já é um dos maiores produtores mundiais…

TEXTO: Paulo Narciso
FOTOS DR

“Os chineses interessam-se, cada vez mais, por vinho e sobretudo por vinho importado”, afirma Edward Ragg, professor universitário, crítico de vinhos e fundador da Dragon Phoenix Wine Consulting, uma das mais reputadas firmas de consultadoria de vinho na China. “Nos últimos dez anos assistimos a um crescimento sustentado de consumidores urbanos com um genuíno interesse pelo vinho”, acrescenta o consultor inglês que, desde 2007, ensina na universidade de Tsinghua (Pequim), “mas o mercado de vinho importado é ainda pequeno, na verdade não é muito maior do que o holandês. Quando se compara a dimensão geográfica e populacional entre a China e a Holanda é fácil concluir que ainda há muito para crescer no maior país asiático.”
Um dos muitos sinais de que tudo está a mudar no mercado chinês são as crescentes parcerias que alguns potentados ocidentais do vinho estão a estabelecer na China: Remy Martin, Pernod Ricard ou Moet&Chandon/LVMH são algumas das marcas presentes no mercado através de joint-ventures com companhias chinesas.
E Portugal? Que papel poderá ter um país pequeno – quando comparado com a vastidão geográfica da China – num mercado que conhecemos desde o século XVI? Tal como no século de quinhentos enviámos naus ao Império do Meio, também agora os produtores portugueses começam a enviar os seus vinhos sem se intimidarem com a forte concorrência de outras potências vinícolas europeias, como a França, Espanha ou Itália. É preciso conquistar terreno no complicado mercado chinês e saber encontrar a fórmula para agradar ao, cada vez mais, sofisticado paladar dos consumidores chineses das “novas” classes média e alta, que facilmente pagam 100 euros por uma garrafa de vinho.
“O mercado da China, por razões culturais essencialmente, é ainda um mercado de abordagem difícil, admito que para todos os países exportadores de vinho. Temos feito incursões que nos permitem melhorar o conhecimento sobre o mercado, consumidores e intervenientes no circuito”, afirma Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal. “Temos trabalhado a presença em feiras especializadas – Hong Kong Wine Fair, Prowine Xangai, por exemplo – e temos organizado anualmente Grandes Provas de Vinhos de Portugal.”
Com quase todas as previsões a afirmarem que a China ultrapassará, em 2020, as vendas de vinho da França e Inglaterra juntas e estando em jogo o valor de 21,7 mil milhões de dólares, é fácil perceber a atração que o mercado chinês exerce sobre os produtores portugueses. “Estudos recentes indicam que, até 2020, 75% do crescimento do consumo mundial de vinho em valor vai estar no mercado chinês, portanto é um mercado claramente a apostar. É um mercado onde já estamos bem presentes e queremos continuar a fomentar e fazer crescer essa presença”, afirma Vítor Santos, da Casa Ermelinda Freitas. Para a conquista do mercado chinês, a casa de Palmela aposta sobretudo no prestígio dos seus tintos. Salientando a dificuldade de comunicação e as exigências alfandegárias, que variam de porto para porto, como as principais dificuldades encontradas no mercado chinês, Vítor Santos sublinha “a dimensão e a grande apetência do mercado para vinho português devido à imagem de qualidade que Portugal tem na China”.
Para João Gomes da Silva, administrador de Marcas e Mercados da Sogrape, as principais dificuldades, quando se pensa no mercado chinês, são “a falta de conhecimento dos vinhos portugueses e a ausência de informação precisa sobre o mercado local”. Mas, por outro lado, salienta a oportunidade que aquele mercado oferece em termos de dimensão com os seus “mais de 300 milhões de potenciais consumidores se tivermos em conta (apenas!) 20% da população total” e também o facto de estarmos perante “uma economia em franco crescimento que se revela aberta ao prestígio dos vinhos importados”.
Com experiência no mercado de Macau desde 2000, a DFJ exporta anualmente para aquele território cerca de 30.000 garrafas de vinho, na sua maioria tintos da região de Lisboa. “O mercado de Macau e províncias chinesas vizinhas está saturado de vinhos importados de todo o mundo e a preço muito baixo”, afirma Luís Gouveia, da direcção comercial e marketing da DFJ. Para a marca sediada no Cartaxo, Macau vale, em média, 20.000 a 30.000 garrafas por ano. “Os consumidores até aos 30-35 anos gostam de vinhos mais frutados, jovens e com açúcar residual ou uma percentagem de álcool elevada, por isso gostam dos vinhos do Alentejo e da região de Lisboa, onde a DFJ tem a maioria da sua produção”, salienta Luís Gouveia.

Produção a crescer
A revolução do vinho na China está a ter grandes repercussões não só no mercado da importação, mas também no da produção local. O aumento de consumo de vinho pelos chineses está a ter impacto na maneira como ele é produzido e a qualidade tem vindo a subir de ano para ano. A produção está concentrada em quatro grandes companhias, que dominam cerca de 60% do mercado: Great Wall (fundada em 1983), Dragon Seal (1987), Huandong (1985) e Changyu (a mais antiga, fundada em 1892). Abaixo destes colossos da produção, situam-se os médios e pequenos produtores chineses que tentam sobreviver num mercado inflacionado pela importação.
Ningxia, província situada a 1200 km de Pequim, é uma das mais recentes zonas de produção de vinho na China e uma das mais promissoras candidatas a região “premium”. Servida pelas águas do rio Amarelo, pelo ar seco do deserto próximo e situada a uma altitude de 1200 metros, Ningxia é uma espécie de ‘ground zero’ dos aspirantes a grandes produtores de vinho chinês. Hoje em dia contam-se 207 companhias ali situadas.
É aqui que encontramos uma das mais aclamadas e promissoras marcas de vinho chinês, a Silver Heights, fundada, em 2006, por Emma Gao (chinesa, enóloga, formada na região de Bordéus) e Thierry Courtade (francês, descendente de uma longa linha de produtores de vinho). O casal de enólogos trabalha com Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay para produzir vinhos ‘premium’, um pouco ao estilo dos da região de Bordéus.
Ema Gao, 40 anos, confirma o crescente interesse dos seus compatriotas pelo vinho: “Os chineses estão cada vez mais interessados em aprender, provar e apreciar vinhos. O vinho está a tornar-se uma bebida do dia-a-dia, em vez de ser consumido apenas em ocasiões especiais.” Mas num país habituado, há séculos, a beber cerveja, vinho de arroz e licores, a nova moda ainda não chegou a todos: “Há ainda grandes zonas do país onde não se bebe vinho e pouco ou nada se sabe sobre ele. Há mesmo quem não saiba que o vinho é feito a partir de uvas.”
Produzindo cerca de 60.000 garrafas/ano, Ema Gao aposta em quatro variedades de vinho e a mais prestigiada – Emma’s Reserve – recebeu 91 pontos do incontornável Robert Parker e rasgados elogios de Jancis Robinson (com uma classificação de 17/20). As vendas ficam quase todas entre Pequim, Xangai e Hong Kong. A próxima meta é exportar para o vasto mercado asiático vizinho e mais tarde, quem sabe, chegar ao Velho Mundo. Ao contrário de muitos dos seus colegas produtores, Ema Gao não teme os vinhos importados: “Um dos factores que tem ajudado os produtores chineses tem sido a crescente oferta de bons vinhos importados e colocados no mercado a um preço acessível. Isto obrigou-nos a aumentar drasticamente a qualidade dos nossos vinhos.”
Há pouco mais de um ano, Ema esteve em Portugal e aproveitou para provar vinhos portugueses: “São magníficos. Uma das castas – Touriga Nacional – é incrível. Que tamanha concentração de sabores e uma variedade tão grande de aromas. Espero um dia levar esta casta para a China.”
Os últimos anos têm revelado muitas e grandes novidades no mercado chinês do vinho. E como será o futuro? Será a China uma aposta sólida para os produtores portugueses?

Moderar entusiasmo
Para Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal, o mercado chinês “deve ser encarado com entusiasmo moderado porque há manifestamente uma procura de grandes volumes, para os quais Portugal não tem uma grande capacidade de resposta; e, por outro lado, uma procura de vinhos baratos, para os quais não conseguimos ter preço”.
No entanto, Jorge Monteiro não deixa de acreditar nas potencialidades do mercado chinês: “Julgo que pode vir a ser um mercado com interesse para vinhos diferentes, como os nossos, mas isso levará tempo. A China apresenta taxas de crescimento elevadas, tendo a exportação de vinhos portugueses crescido 24,1% em valor. Trata-se de uma boa taxa de crescimento, mas quando, ao mesmo tempo, dispomos de mercados mais próximos, com cultura de vinho, em que a língua não é uma barreira, disponíveis para pagar mais – e refiro-me por exemplo ao Luxemburgo, Suíça ou mesmo a Rússia – vale a pena questionar a oportunidade de se trabalhar um mercado longínquo, extenso, com elevadas barreiras culturais e linguísticas.”
João Gomes da Silva, da Sogrape, assume-se mais optimista e prevê um crescimento global do volume de vinho importado na China e “uma crescente ‘premiuminização’, fruto da pressão de consumidores cada vez mais bem informados, que irão conhecendo melhor as virtualidades dos vinhos portugueses”.
Para Luís Gouveia, da DFJ, a evolução do mercado na China dependerá “muito da protecção que o Governo chinês entender dar ao vinho da China, hoje um dos maiores produtores mundiais e cuja qualidade vem subindo em cada nova colheita”. E profetiza: “A procura de vinhos por um euro continuará e o consumo de vinhos muito caros de Bordéus e Borgonha aumentará.”
“Não faço a menor ideia” – é assim que Edward Ragg perspectiva a evolução do vinho na China. “É um mercado que muda muito rapidamente. Não vejo a China a exportar grandes quantidades de vinho, mas apenas quantidades limitadas de alguns ‘super-premium’. A China não é o país mais indicado para produzir vinho por muitas razões, incluindo as climáticas. Resumindo: não vejo a China a ter um papel muito significante na exportação de vinho.”
Se há coisa que os chineses têm demonstrado, ao longo da história, é a sua grande capacidade de adaptação e aprendizagem (que alguns apelidam de “cópia”). Enquanto vai abrindo o seu mercado ao vinho do Velho Mundo, a China continua a aprender com os melhores. Até onde isso a levará no mundo do vinho? Talvez a resposta esteja num dos muitos provérbios chineses: “O segredo de andar sobre as águas é saber onde estão as pedras!”

O “gosto chinês”

Ouve-se muitas vezes falar de um tal gosto chinês como sendo diferente do gosto ocidental. Mas para o consultor e professor da Universidade da Agricultura de Pequim, Demei Li, não existe um “gosto chinês” – os gostos variam em função de hábitos gastonómicos e estes variam em função da região. Por exemplo, no norte e leste da China come-se comida salgada, mas nas regiões a oeste os habitantes gostam da comida picante e no sul da China mais picante ainda. Na costa leste, as preferências gastronómicas recaem sobre o peixe e marisco, mas algures lá no meio disto sobressai o gosto pelos sabores doces. O vinho ideal para acompanhar toda esta enorme variedade gastronómica não pode ser sempre o mesmo. Outra consideração é a cor do vinho. Os chineses bebem 75% de vinho tinto, 15% de branco e apenas 5% de rosé e 5% de espumantes. O vinho tinto é considerado superior em qualidade ao vinho branco, logo não podem ser vendidos pelo mesmo preço. Mas nas regiões ao longo da costa o consumo de vinho branco tem vindo a crescer.
Valéria Zeferino

Edição Nº17, Setembro 2018

Escreva um comentário