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Editorial: Lisboa vestida de branco

By 11 de Janeiro, 2023 Sem comentários

Luís Lopes

Não, infelizmente, o título não anuncia a cidade de Lisboa sob um manto de neve. Parece que esse fenómeno raro aconteceu pela última vez em janeiro de 2006 e, antes disso, mais a sério, em fevereiro de 1954. Falo sim de grandes vinhos brancos da região de Lisboa. Que, felizmente, e ao contrário da neve, não se revestem de nenhuma raridade. Pelo contrário, são cada vez mais e melhores.

Editorial da edição nrº 69 (Janeiro 2023)

Brancos de Lisboa é o tema da Grande Prova que este mês apresentamos aos nossos leitores, pela pena de Nuno de Oliveira Garcia. Se há região portuguesa que, pelo menos em teoria, tem tudo para nos presentear com vinhos brancos de primeira linha, essa é a região de Lisboa. Razões para isso, são muitas. Desde logo, históricas. Integrada na área vitivinícola de Lisboa está a única denominação de origem nacional exclusiva para vinhos brancos, Bucelas. Já para não falar de outra das mais antigas DOC’s portuguesas, Colares, que ainda que mais famosa pelos tintos não deixa os pergaminhos dos seus brancos (como se viu nesta prova) por mãos alheias. Mas existem, igualmente, razões climáticas por trás do “potencial branco” desta região. A sua configuração geográfica, uma faixa estreita que se estende desde a cidade capital até acima de Leiria, correndo ao longo do oceano atlântico, beneficiando assim de noites e manhãs frescas no verão, é propícia à criação de uvas com refrescante acidez. E todos sabemos que acidez equilibrada é factor decisivo para a elaboração de vinhos brancos de qualidade superior.

Chegado a este ponto, quem lê estas linhas está à espera que fale de castas. Lá chegarei. Antes, quero mencionar um outro elemento, frequentemente esquecido quando se elencam as virtudes de uma qualquer região, e que está na base da “revolução” ocorrida nos vinhos brancos de Lisboa: as pessoas. Pessoas que, na região de Lisboa, são sinónimo de empreendedorismo. Desde os finais do século XIX até aos tempos modernos, produtores e negociantes locais, como os pioneiros João Camillo Alves e Abel Pereira da Fonseca, sempre estiveram em absoluta sintonia com o mercado, ou melhor, os mercados, antecipando-se às necessidades do consumidor daquém e dalém mar. E quando o consumidor, hoje, também quer brancos de topo, Lisboa está a postos para os oferecer.

Falemos então das variedades de uva branca. O empreendedorismo que acabei de referir fez da região de Lisboa um caldeirão de experimentação “cozinhado” por grandes profissionais, onde o pragmatismo prevaleceu sobre a tradição, e onde, historicamente, sempre se plantaram as castas mais adequadas aos objectivos, definidos pelo mercado alvo num dado momento. Das muitas actualmente usadas, deixem-me abordar apenas as duas variedades que, por razões distintas, considero mais significativas para o futuro próximo dos melhores brancos de Lisboa. Primeiro, naturalmente, Arinto. Uma casta que atravessou épocas e gerações, sobrevivendo aos ventos de mudança. Acantonada no seu berço, em Bucelas, pôde de novo expandir-se quando a procura de qualidade se sobrepôs ao apelo da quantidade, transformando-se em bandeira regional. A sua inigualável plasticidade, adaptabilidade e polivalência torna-a, para mim, na melhor casta branca portuguesa. Durante décadas lamentei que em Lisboa, e sobretudo em Bucelas, não lhe dessem a atenção que merece. Hoje, finalmente, e apesar do muito ainda por explorar nesta uva preciosa, as minhas preces vínicas parecem ter sido ouvidas.

Depois, uma casta que veio do Douro para iluminar Lisboa, a Viosinho. De agradável surpresa a segura confirmação, mostrou nos frescos ares atlânticos qualidades insuspeitas no vale duriense, sobretudo ao nível da intensidade, elegância, equilíbrio ácido e, pasme-se, longevidade. Vai ser, seguramente, um esteio transversal aos brancos de topo produzidos nesta região.

História, clima, empreendedorismo, castas. Por esta ou outra ordem, são a base dos mais ambiciosos vinhos brancos de Lisboa. E que bons que eles são!

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