Grande Prova

Frescura alentejana, em brancos de Primavera

By 26 Novembro, 2018 Sem comentários

“The times they are a-changin’.” Bob Dylan não se referia aos vinhos quando compôs a música, mas o essencial está lá: os tempos estão a mudar, o sociológico e o meteorológico, e os brancos do Alentejo também. Cada vez mais elegantes e frescos, acompanhando a Primavera…

TEXTO Mariana Lopes
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Para satisfação dos produtores, na busca por um mercado vínico mais democrático e equilibrado, o facto é que o consumo e procura de vinho branco têm evoluído positivamente nos últimos seis ou sete anos. Isto verifica-se na generalidade das regiões e o Alentejo não é excepção, funcionando como motor para o aumento das plantações de uva branca e da produção de vinho branco. Segundo dados estatísticos apurados pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), este crescimento verifica-se tanto em volume como em percentagem da produção total, sendo que em 2012 o vinho branco representava 19% e em 2016 já estava na ordem dos 23%. Num total de, aproximadamente, 21.353 hectares de vinha que o Alentejo hoje tem (com Denominação de Origem Controlada e Indicação Geográfica), mais de 4.767 são de uva branca, ou seja, 22,3%.
Com isto percebemos que o domínio do vinho tinto sobre o branco ainda existe, mas que o caminho está a ser traçado. E os enólogos reiteram. Luís Cabral de Almeida, da Herdade do Peso, diz que a procura por vinhos brancos das suas marcas “está a subir todos os anos, e as vendas do Sossego branco crescem exponencialmente”. O mesmo indica Carlos Rodrigues, técnico da Adega Mayor, confirmando que “tem sido uma constante aumentar a área de vinha branca, em parte por causa disso” – e analisa que “antigamente, os brancos eram um nicho de mercado e agora já não, as tendências mudaram, houve modernização do património vitícola do Alentejo e já há um equilíbrio maior”.
Mas, há cinco anos, Filipe Teixeira Pinto, da Herdade do Sobroso, ainda não o sentia. Foi há cerca de três anos que se começou a aperceber de um interesse muito crescente pelos brancos. Mas isto são apenas “facts and figures”, há-que ir a outras nuances. Quem é o consumidor que está a puxar a barra dos brancos para cima, no gráfico do Alentejo? Segundo Pedro Ribeiro, do Rocim, é “aquele consumidor inicial, que vem dos tintos mais estruturados, que começa a dar mais atenção aos brancos do que o de antigamente e, quanto mais conhecedor é, mais importância dá ao branco”. Filipe Teixeira Pinto complementa, e diz que esse fenómeno acontece sobretudo “em gamas superiores”.

Desafiante, mas não impossível
Nesta prova de brancos alentejanos provaram-se vinhos com preço de venda ao público até oito euros, a maior parte da colheita de 2017, mas também vários de 2016, alguns 2015 e até um 2014. A jornada que tivemos faz-nos rir do mito: que o Alentejo é uma região menos favorável para brancos. Esqueça-se isso de vez. Não só é favorável como podemos constatar frescura, crocância e até mineralidade. Se é fácil? Ninguém diz. Fazer brancos assim, no Alentejo, é até um dos maiores desafios para os enólogos, principalmente com o clima em constante mutação e o aquecimento global que, quer se queira quer não, está aqui.
Pedro Ribeiro declara, sem vacilar, que “tudo aquilo que são boas qualidades num branco, a frescura, a mineralidade, a acidez, consegue-se encontrar no Alentejo, mas o desafio maior é esse, encontrar numa região quente o equilíbrio e a frescura”. Para Luís Cabral de Almeida, passa por encontrar, ainda na vinha e principalmente na Antão Vaz, o compromisso entre o carácter vegetal e o carácter mais frutado da uva, o momento exacto em que esses dois marcadores estão em equilíbrio para que possa ser colhida e para se preservar o equilíbrio ácido. “Normalmente, os brancos associados ao Alentejo são de peso e volume”, diz Carlos Rodrigues, “e contrariar isso é sempre um desafio, acima de tudo mantendo o carácter alentejano”.

As alterações climáticas
“Uma região quente”, são palavras que saem da boca destes técnicos e de outros mais, e também da do povo. Sempre foi. Porém, com as alterações climáticas globais, parece estar cada vez mais. “Já não é um ‘será’, mas uma certeza”, diz Pedro Ribeiro, “e o Alentejo é das regiões que mais sofre com isso. Quando comecei, há vinte anos, as vindimas começavam no final de Setembro e agora começam no início de Agosto.” É verdade e urge combatê-lo, não só para obtenção de bons resultados na garrafa, como pela sustentabilidade ambiental.
Felizmente, é fácil de ver que, mesmo no plano nacional, os produtores estão muito despertos para o problema e cientes da sua responsabilidade. Vemos adegas de todas as regiões com planos de poupança, reserva e reutilização de água, uma exponencial tendência de agricultura sustentável e de respeito pelo planeta. O Alentejo também tem as suas próprias formas de lidar com estas adversidades. A busca pelas castas mais resistentes já começou e essa é uma das razões pelas quais algumas uvas antigas e já pouco presentes estão a ser recuperadas.
Luís Cabral de Almeida explica: “Estamos muito preocupados com isso e a trabalhar bastante nesse sentido. Olhamos para o passado para plantar as vinhas futuras. Estamos a fazer uma pesquisa exaustiva sobre as castas que se plantavam antes e os

sistemas de condução que se utilizavam, e sentimo-nos obrigados a perguntar ao passado o que é que resistia. Procuramos também castas de ciclo longo, cuja maturação fenólica seja feita o mais tarde possível, que se possam vindimar mais tarde, para se beneficiar de uma coisa muito importante, que são as noites mais frias. É fulcral tentar perceber e acompanhar algumas vinhas velhas na nossa zona com castas antigas, para fazer novas plantações e, acima de tudo, colocar em causa os sistemas de condução actuais.”

Castas brancas do Alentejo

Antão Vaz é, cada vez mais, a casta-bandeira do Alentejo. O que não deixa de ser curioso para uma variedade que, no início dos anos 80, era quase inexistente fora da Vidigueira. As noites mais frescas desta sub-região alentejana (influência da serra do Mendro) conferem mais frescura, equilíbrio e mineralidade, sobretudo quando plantada em solos de xisto e granito. Fora da Vidigueira, precisa muitas vezes do apoio de uma casta mais ácida. Fruto expressivo, corpo, elegância, são alguns dos seus atributos.

Até à ascensão da Antão Vaz, a Síria (ou Roupeiro, como é conhecida localmente) era a rainha das uvas brancas alentejanas. Ainda hoje mantém o segundo posto, mas longe do predomínio de outrora. Origina vinhos muito aromáticos quando jovens mas não mostra no clima alentejano a resistência ao tempo que revela no planalto da Beira Interior. Ainda assim, continua a ser de grande utilidade nos lotes.

Arinto é a parceira ideal da Antão Vaz, conferindo-lhe a acidez e frescura que por vezes lhe falta. Uva antiga, presente em todo o país, é muito provavelmente a casta branca portuguesa mais útil, pela sua polivalência, adaptabilidade, acidez natural e aromas e sabores citrinos.

Fernão Pires e Rabo de Ovelha, são duas castas tradicionais na região (e em quase todo o Portugal continental, na verdade), mantendo ainda uma pequena presença (pouco mais de 5% cada) nas plantações alentejanas. A Fernão Pires origina vinhos de grande intensidade floral e corpo cheio, mas precisa ser vindimada bem cedo, sob pena de perder a acidez e a graça. Tal como a Fernão Pires, a Rabo de Ovelha tem produtividade elevada, e necessita cuidados acrescidos para originar vinhos de qualidade.

Verdelho, Gouveio e Alvarinho (as primeiras duas são muitas vezes confundidas, até pelos próprios produtores) são castas recentes na região mas em forte expansão. A elegância aromática, o perfume, a capacidade de manter acidez com a maturação são trunfos importantes a seu favor.

Juntamente com o Roupeiro, antigamente encontravam-se por todo o Alentejo, mas estão agora em acentuado declínio. Raramente são objecto de atenção nas novas plantações, ainda que se comece a assistir à redescoberta da Perrum, uma casta de grande qualidade, pela acidez e componente mineral que empresta aos vinhos. (LL)

Passaporte alentejano
Os enólogos dizem-nos que há variedades mais resistentes do que outras, e é aí que surge uma declaração de amor generalizada: Antão Vaz, Antão Vaz, Antão Vaz. A menina dos olhos de muitos dos que fazem vinho no Alentejo, naturalmente, e ainda mais, na Vidigueira. Não só porque faz frente às intempéries, mas também pela personalidade intrínseca da uva. “É a que gosto mais, permite-nos fazer brancos com variados estilos”, confessa Filipe Teixeira Pinto. Mesmo Carlos Rodrigues, de fora da Vidigueira (a Adega Mayor fica em Campo Maior), assume que esta casta é das mais interessantes de trabalhar, e Pedro Ribeiro também a indica como favorita e não deixa de dizer que “tem uma expressão particular na Vidigueira, onde é perfeitamente possível atingir mineralidade com ela, desde que tenhamos uma linha de respeito pelo terroir”.
Isto traduz-se num facto irrefutável: neste momento a Antão Vaz é a casta mais plantada em toda a região, a representar quase 26% do encepamento em cerca de 1.230 hectares, num total de 4.760 de vinha branca. Também é verdade que, na Vidigueira, as condições são particulares. Já sabemos que a serra do Mendro e os ventos do Atlântico temperam o clima desta sub-região, o que ajuda muito na “epopeia” da frescura. Mas, em todo o Alentejo há armas em forma de uva que tornam essa epopeia menos árdua e, por vezes, essas armas são estrangeiras à região.
A Arinto, nascida em Bucelas mas residente honorária em variadas regiões do país, é assídua nos lotes clássicos do Alentejo, sobretudo com Antão Vaz, e é essencial para uma boa acidez e frescura. Carlos Rodrigues sabe bem que assim é e diz que “Arinto é a vertente fresca do Sul, é o ‘nosso’ Alvarinho, dá-nos nervo”. A questão da introdução de castas de fora no Alentejo prende-se com esta matéria do equilíbrio e é uma questão sensível, mas não, de todo, controversa. Falamos de Verdelho, Viosinho, Viognier ou Alvarinho, por exemplo.
Muitos consideram-nas necessárias, mas percebem que a comunicação da região não é por aí. “Não as ponho de parte”, revela Carlos Rodrigues, “só não devemos tentar fazer igual à região de origem, mas é extremamente interessante ver o comportamento delas aqui. Gosto muito de complementar os meus lotes com essas castas, como sal e pimenta para um vinho. O Verdelho, por exemplo, é uma casta constante nos nossos vinhos, pois dá-nos frescura, tipicidade, mineralidade.” Filipe Teixeira Pinto é assertivo na resposta, afirmando que “são precisamente necessárias para ir buscar a tal frescura aromática e de boca que muitas das variedades de fora têm.” E especifica: “O Alvarinho é uma que acredito ter futuro no Alentejo e o Verdelho já deu mais que provas. O Arinto, esse é um todo-o-terreno.” Luís Cabral de Almeida acrescenta um lado comercial: “Acho que as novas castas têm ajudado a conquistar outros consumidores. Em vinhos de entrada de gama, tornam-nos mais universais mas, no segmento dos seis aos oito euros, o caminho deverá ser a distinção. Mais tarde, o consumidor vai agradecer a opção pelas castas autóctones.”
Dados da CVRA mostram-nos que, a seguir ao Antão Vaz, as uvas mais plantadas em todo o Alentejo são a Síria (19%), que tradicionalmente na região tem o nome de Roupeiro, Arinto (15%), Rabo de Ovelha (6%), Fernão Pires (5%) e Verdelho (5%). No entanto, as tendências dos últimos anos adivinham alterações a estes números. De acordo com a Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo (ATEVA), têm aumentado muito a sua força, além do Arinto, a Viosinho, Verdelho, Alvarinho e Viognier, precisamente. Curiosamente, também a Encruzado (do Dão) tem começado a aparecer (quem diria?). A Síria é um dos casos de diminuição acentuada nas plantações mas que, como também tem acontecido com a Perrum (sobretudo na Vidigueira), nos últimos três anos tem sido recuperada pelos produtores. Isto revela que aqui não há perdedores. Não só há abertura a novos instrumentos como os da terra estão a ser bastante valorizados e reintroduzidos.

O jeito que o branco tem
Os quatro enólogos com quem falámos pertencem ao grupo dos seis vinhos que obtiveram classificação mais alta neste painel de prova. Juntam-se-lhe Solar dos Lobos e Pousio. Todos eles custam entre seis e oito euros e todos têm um perfil muito objectivo, perfil esse que converge entre estas marcas, neste segmento. “Acima de tudo, tem de ser convidativo. O mercado quer estes vinhos já com personalidade e sentido de lugar. Tem de ter frescura e ser gastronómico, ter equilíbrio”, confere Luís Cabral de Almeida. Todos dizem que um toque de madeira usada, mas pouca, faz toda a diferença, porque dá a personalidade necessária ao perfil. Filipe Teixeira Pinto acrescenta que, neste segmento de preço, “são brancos que não se limitam ao estereótipo do vinho de Verão”: “Já deve ser um vinho para o Inverno também, com alguma estrutura e que viva mais tempo.” Nas palavras de Pedro Ribeiro, “um comercial upgraded”.
Dizer que ainda há caminho a percorrer pode ser verdade, mas é um cliché que todos dizemos por acreditarmos que há uma fita de chegada para cortar, um vinho ideal, perfeito e a partir do qual não há mais para onde ir. Mas estamos bem e a fazer bem. Estamos lá, o percurso é notável. Equilíbrio, acidez, frescura, leveza, Alentejo. For the times, they are a-changin’.

Em Prova:

  • Herdade do Rocim
    Regional Alentejano, Branco, 2017

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Adega Mayor Seleção
    Regional Alentejano, Branco, 2017

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Chaminé
    Regional Alentejano, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Solar dos Lobos Exclusive Collection
    Regional Alentejano, Branco, 2016

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Dona Maria
    Regional Alentejano, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Herdade do Sobroso Barrique Select
    Alentejo, Branco, 2017

    16.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Dom Martinho
    Regional Alentejano, Roupeiro,Arinto, Branco, 2016

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Marquês de Borba
    Alentejo, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Montaria
    Regional Alentejano, Reserva, Branco, 2016

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Pousio Selection
    Regional Alentejano, Branco, 2017

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Herdade Grande Blend Clássico
    Regional Alentejano, Colheita Seleccionada, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Duas Castas
    Regional Alentejano, Viosinho,Alvarinho, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Herdade do Peso
    Alentejo, Branco, 2016

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Alento
    Regional Alentejano, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Monte da Ravasqueira Seleção do Ano
    Regional Alentejano, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Flor do Guadiana
    Regional Alentejano, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Artefacto
    Regional Alentejano, Arinto, Colheita Seleccionada, Branco, 2015

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição nº13, Maio 2018

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