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Monte da Bica: um Alentejo diferente

Um ‘Alentejo diferente’ parece um cliché, mas não o é. Um projeto novo que se inicia num território de transição com alguma influência atlântica. Com o Monte da Bica, o Alentejo ganha mais um perfil!

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia               FOTOS Cortesia do produtor

Quando se pensa em Alentejo pensa-se em tudo menos numa zona de transição para os vinhos da Península de Setúbal ou mesmo do Tejo. Mas a verdade é que são regiões vizinhas no que toca ao mapa vitivinícola português. Há mais de uma década, os produtores alentejanos ‘em transição’ centraram-se sobretudo em redor do Torrão, no município de Alcácer do Sal, caso da Herdade das Soberanas e Herdade do Portocarro. Hoje apresentamos um novo produtor não exatamente dessa área de transição, mas de outra, mais a norte, muito próxima de Lavre. É aqui, quase equidistante entre Montemor-o-Novo (a Sul), Pegões (a Oeste) e Coruche (a Norte), com clara influência da Reserva Natural do Estuário do Tejo e do próprio Oceano Atlântico, que fica sito o Monte da Bica. O monte tem larga tradição em cereal e cortiça (é mesmo uma zona de grande implantação de cortiça), mas também de vinha e montado. Depois de alguns anos de ocupação (ainda sequelas da revolução de Abril) e quase abandono, em 1989 o pai de João Oliveira regressaria em força ao monte. A vinha que tinha sido arrancada durante a ocupação foi plantada de novo, bem como as restantes plantações. Todavia, foi só mais tarde, quando o filho João Oliveira viu a adolescência a ficar para trás, que o projeto vínico arrancou ao seu cuidado. Privilegiou-se as castas tintas, como o Castelão – típico da região, a revelar a proximidade às terras de Setúbal –, as omnipresentes Touriga Nacional e Syrah, e ainda um pouco de Cabernet Sauvignon. Actualmente, existem 6 ha em produção, mas em 2017 foram plantados mais 2,5 ha. desta feita de Merlot e mais Cabernet Sauvignon. O solo também revela a transição de que temos vindo escrever, com uma mistura de areias e argila pouco comum mais a sul na planície alentejana.

João e André fazem vinhos

Em 2016, decide-se contratar André Herrera para liderar a enologia, sendo da sua responsabilidade todos os vinhos lançados. André Herrera, produtor e enólogo dos vinhos Duende, há muito que trabalha no Alentejo (onde vive, de resto), sobretudo nos anos em que integrou o projeto Fita Preta de António Maçanita. André confidenciou-se que os resultados no Monte da Bica sempre o entusiasmaram pois permitiram um perfil mais aberto e leve do que aquele que estava habituado, apesar de ter estranhado no início a cor e acidez dos mostos. É caso para dizer que, se primeiro estranhou, depois entranhou (como escrevia Pessoa), pois hoje André é perentório no sentido de que o terroir do Monte da Bica é ideal para a produção de vinhos modernos, abertos e versáteis, verdadeiros exemplares de tintos ‘joie de vivre’ tão de moda actualmente. André e João – enólogo e produtor – comungam de uma filosofia de detalhe, centrada em pequenas produções e produtos diferenciados. Pelo que vimos, e provámos, essa filosofia está plenamente presente em todos os néctares, pois estes transbordam originalidade e carácter.

O projeto centra-se atualmente no mercado nacional – e em especial no canal horeca – e a exportação só irá ser um desafio quando a produção aumentar o que não deverá acontecer de forma significava num futuro próximo. Provados os 5 vinhos no mercado, é caso para dizer que todos beneficiam de uma acidez vibrante e de um fruto encarnado aberto e provocador, muito saboroso e nada impositivo. A exuberância e jovialidade do projeto manifesta-se também nos rótulos e nos (muito curiosos, mas sugestivos) nomes atribuídos aos vinhos, com especial destaque para os tintos ‘As netas chegaram primeiro’ (as netas são o resultado de gomos secundários que geralmente amadurecem depois das restantes uvas, existindo mesmo uma operação conhecida por desnetamento) e ‘Afinal não arrancámos o Castelão’ (que se afigura autoexplicativo)… Mas o mais importante é mesmo provar os vinhos que estão disponíveis, essencialmente, na restauração, sendo que a distribuição está a cargo da empresa Sabe Vinho, de Inês Carrão.

  • Afinal não arrancamos o Castelão
    Regional Alentejano, Grande Reserva, Tinto, 2016

    17.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Monte da Bica
    Regional Alentejano, Rosé, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • As netas chegaram primeiro unoaked
    Regional Alentejano, Reserva, Tinto, 2016

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Monte da Bica
    Regional Alentejano, Tinto, 2016

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • As netas chegaram primeiro oaked
    Regional Alentejano, Reserva, Tinto, 2016

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº24, Abril 2019

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