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O regresso do ‘filho pródigo’

By 27 de Março, 2019 Sem comentários

Esta é a história de um tonel muito especial. Uma história com muitas estórias pelo meio. Mas aqui vamos contar apenas a parte da chegada de uma espécie de filho pródigo, mais de um século depois.

TEXTO António Falcão
FOTOGRAFIAS Ricardo Palma Veiga

A história começa no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, por volta do século XVIII. Foi residência oficial de Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como Marquês de Pombal. Esta quinta, com mais de 200 hectares, produzia na altura diversos produtos agrícolas, incluindo uva e vinho. Como tal, possuía adega e tonéis para estágio de vinhos. A dada altura, provavelmente pela pressão urbana que foi crescendo, a quinta foi vendida e estes tonéis foram atrás. E o rasto perdeu-se…
A história é retomada muitos anos mais tarde, já nos nossos dias. O protagonista passa a ser Adriano Sérgio, um luthier português. O que é um luthier? Pois bem, é um profissional que se dedica à construção e/ou reparação de instrumentos de cordas (nota: luthier, segundo a Wikipédia, também pode ser conhecido como violeiro, guitarreiro ou luteiro). Pois bem, nos seus instrumentos, Adriano usa sempre madeiras seleccionadas e, de preferência, velhas. Um belo dia, soube que numa quinta do Ribatejo estava um conjunto de madeiras velhas e foi lá ver. Era de facto um conjunto notável de tonéis desmontados, sobretudo de mogno da América do Sul (Honduras) e algum vinhático. Seis toneladas de madeira! O proprietário não sabia ao certo o ano daquelas madeiras, mas lembrava-se dos seus antepassados afirmarem que as tinham comprado no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras. Ou seja, contas feitas às gerações, estamos a falar de madeiras com, pelo menos, dois séculos e meio. O histórico do palácio confirma estes indícios. Ora, madeira com esta idade e com esta qualidade não é nada fácil de encontrar e é muito procurada pelas suas características ímpares.
O investimento era pesado e por isso Adriano contactou alguns colegas europeus e rapidamente se arranjou um conjunto envolvendo meia dúzia de luthiers.
A história saiu na imprensa e foi parar aos ouvidos de Alexandre Eurico Lisboa, o Coordenador Técnico do Projecto da Vinha e do Vinho da Câmara Municipal de Oeiras; este município é o proprietário do palácio e o maior produtor existente de vinhos com a denominação Carcavelos. Alexandre Lisboa contactou Adriano Sérgio e conseguiu convencê-lo a dispensar à Câmara um dos tonéis. Adriano concordou e o conjunto foi para Espinho, para a tanoaria J. Dias, onde foi totalmente restaurado. Este trabalho, disse-nos Mickael Santos, que supervisionava o trabalho de instalação, levou cerca de 3 semanas e envolveu vários especialistas. O tonel leva 7 mil litros, pesa cerca de uma tonelada e é quase integralmente feito de mogno, uma madeira que, pelos vistos, já foi usada em tempos para estagiar vinhos. No final, o tonel levou ainda uma ligeira tosta.
A colocação do tonel na cave do palácio não foi uma tarefa fácil, mas, ao fim de umas horas de manobras, lá ficou a descansar na sua morada definitiva. O plástico protector foi removido e, logo de seguida, foi cheio com vinho Carcavelos da colheita de 2018.

Do ouvido para a boca?
Alexandre Lisboa estava radiante com o resultado, até porque este tonel (e uma generosa barrica que também veio, feita com sobras) acaba por regressar a casa, mais de um século depois. Melhor ainda, a operação acabou por sair relativamente barata à Câmara de Oeiras; a J. Dias também ajudou neste aspecto, pela faceta histórica do assunto. Ficou ainda combinado que será aqui, no Palácio do Marquês de Pombal, em Setembro, que serão apresentadas seis guitarras feitas com as madeiras dos tonéis do marquês. Cada um dos luthiers fará a sua. A de Adriano ficará com o nome de Carcavelos. Todas as suas criações têm, aliás, o nome de uma cidade portuguesa. E, espera-se que na altura já se possa provar o novo vinho em estágio…
Adriano Sérgio também estava exultante: o mogno estava em muito bom estado, à vista e ao tacto. Melhor ainda: o técnico bate suavemente com um pedaço de mogno em pedra e o som sai completamente diferente do de outras madeiras, como pinho ou carvalho. Mostrando quase uma tensão nervosa no material, um toque a sugerir o metálico. Adriano sabe do que fala: “Estas madeiras vão estabilizando ao longo dos anos; essa estabilidade (entre outras características) confere excelentes qualidades acústicas aos instrumentos”. O caso mais conhecido é o dos violinos Stradivarius, que custam uma fortuna cada. A madeira velha de boa qualidade é, definitivamente, um dos grandes segredos da qualidade do som. Agora só falta ver se este mogno velho vai transmitir a mesma excelência, mas no palato, ao vinho Carcavelos que aí vai estagiar. Afinal, são todos sentidos humanos e deverá existir sinergia. Mas, na verdade, só o tempo o poderá dizer. Nada que assuste, aliás, os bons vinhos Carcavelos, que, à semelhança dos Madeira, conseguem facilmente durar muitas décadas. Se dúvidas houvessem, bastaria provar o fantástico Villa Oeiras Colheita 2005, à venda na loja do Palácio, por 64 euros.

Oeiras quer partilhar e apoiar o vinho Carcavelos

É notável o papel que o município de Oeiras tem realizado na defesa do seu património vínico. Diríamos mesmo ímpar em Portugal. Ao seu cuidado estão neste momento 12 hectares de vinha, que é de facto a única produção neste momento na denominação Carcavelos. Por isso, o município já começou a dar apoio a outros produtores interessados em investir na região (como na Quinta da Samarra, na freguesia de Livramento) e está aberta a qualquer outro interessado com vinha. A própria Câmara Municipal de Cascais está interessada, o que faz todo o sentido pois Carcavelos pertence ao concelho de Cascais. Como nos disse Alexandre Lisboa, “o objectivo primordial deste projecto é a recuperação do vinho de Carcavelos e de toda a sua região”.

Edição Nº22, Fevereiro 2019

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