PINHAL DA TORRE VINHOS: A identidade de um terroir do Tejo

A Pinhal da Torres Vinhos fica em terras planas, de lezíria, bem próximas do Rio Tejo e de Alpiarça, terra da Casa dos Patudos, a casa de José Relvas transformada em museu, que vale a pena visitar, e a Reserva Natural do Cavalo do Sorraia, onde se podem ver alguns exemplares daquele que era o cavalo primitivo e autóctone do sul da Península Ibérica, segundo os escritos desta entidade. Paulo Saturnino Cunha, gestor do Pinhal da Torre, conta que a família produzia vinhos, na zona, há muitos anos. Lembra-se mesmo que os bisavôs que conheceu, três ao todo, tinham cada um uma adega, numa terra onde houve sempre produção de vinho a granel, como se fazia em quase todo o Portugal de outros tempos.

Pinhal da Torre
A sala de barricas da Pinhal da Torre, onde os vinhos estagiam entre três e quatro anos antes de saírem para o mercado

Volume e algumas coisas boas

O Ribatejo, hoje região vitivinícola do Tejo, era conhecido por produzir enormes quantidades de vinho, que abasteciam, principalmente, os restaurantes e as tabernas de Lisboa e as ex-colónias de África. As vinhas desenvolviam-se nos solos mais férteis e tinham produções elevadas, e as grandes casas agrícolas pretendiam obter o máximo rendimento, produzindo vinho de pouca qualidade, com o intuito de ser vendido a granel. A família de Paulo Saturnino Cunha chegou a ter 200 hectares de vinha com essa função, mas o pai “engarrafava algumas das coisas boas que produzia, para consumir em casa e dar aos amigos”, conta o nosso anfitrião. Nessa altura, a empresa familiar dedicava-se sobretudo à produção de morangos, para além das culturas de milho, tomate, entre outros produtos. Era o negócio principal. Ocupava 50 hectares de estufas e estufins na lezíria do Tejo, com uma produção média de cerca de 40 toneladas por hectare, parte exportada em fresco, em camiões, com destino a vários países europeus.

“Geadas tardias, que chegavam a dizimar toda a produção de morangos e obrigavam a esperar o nascimento de novos frutos, tornavam a actividade muito complicada”, conta o gestor. Outro problema era a mão de obra, em particular durante a colheita, época do ano em que podiam participar mais de 600 pessoas, que se tornou cada vez mais difícil de angariar na zona. Devido a este cenário, os seus antecessores chegavam a disponibilizar autocarros, para recolher pessoas em Alvaiázere e Pedrógão Grande, de modo a suprir as necessidades do negócio. Até que, em 1995, a casa suprimiu esta produção, por decisão familiar. “Nessa altura também vendíamos muito vinho a granel, e, quando se acabou com a produção de morangos, decidiu-se que iríamos apostar a sério na de vinho”, revela Paulo Saturnino Cunha, que vivia, na época, no Brasil.

Entretanto, o pai tinha tirado um curso na Estação Vitivinícola de Nelas. Influenciado talvez por isso e por ter mantido um relacionamento próximo com docentes, plantou nas suas terras clones do Dão da casta Touriga Nacional, bem como as brancas Cerceal-Branco e Bical, que “não vingaram, porque a qualidade dos vinhos a que deram origem não era muito boa”, declara, acrescentando que o primeiro engarrafamento de vinhos decorreu em 1999. No ano seguinte, foi produzido um “grande Touriga Nacional, que nunca perdeu uma prova às cegas com os melhores vinhos do mundo, incluindo os Mouton, Margaux e outros”, que os seus amigos organizavam enquanto esteve no Brasil.

Reconhecimento e notoriedade

A partir daí, os vinhos da empresa começaram a ganhar algum reconhecimento e notoriedade, sobretudo lá fora, “porque, em Portugal, tínhamos o problema de sermos da região que somos e, quando chegávamos a algum lugar para vender os nossos vinhos, os compradores mostravam-se desinteressados”, comenta Paulo Saturnino Cunha, referindo-se à reputação que a região tinha, o que não acontece hoje. Por isso, os responsáveis do Pinhal da Torre voltaram-se para o mercado externo, para onde chegou a ser vendida 93% da produção, sobretudo países como os Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, China, Holanda, Luxemburgo e Suíça.

Foram dois os factores que levaram Paulo Saturnino Cunha a apostar no mercado externo. O primeiro foram as ‘reclamações’ que recebia dos amigos brasileiros, por não encontrarem os seus vinhos à venda, em Portugal, quando visitavam o país. O segundo foi a pandemia de Covid-19, que impediu as suas deslocações aos mercados externos para vender. A solução foi dedicar mais tempo ao nosso país a partir desse período.

“Dar mais atenção ao mercado nacional durante a pandemia, levou-nos a estarmos, hoje, presentes numa percentagem significativa dos melhores restaurantes de Portugal, do Algarve ao Norte, o que contribuiu para que tenhamos, hoje, uma disseminação muito grande no país, para onde vendemos, actualmente, 50% dos nossos vinhos”, conta o responsável pelo Pinhal da Torre, acrescentando que a distribuição é feita através de empresas de implantação regional. No exterior, o principal mercado, hoje, é o Brasil.

Pinhal da Torre
Apostar na oferta variada e diferenciada em termos de preço e perfis de vinho, tem sido fundamental para o negócio de Paulo Saturnino Cunha

 

Pelo menos, três anos em cave

Os vinhos são produzidos na Quinta de São João, na Quinta do Alqueve e em Águas Vivas, propriedades que perfazem um total de 40 hectares, dos quais 30 estão ocupados por vinha. A produção média é de cinco toneladas de uva por hectare, em resposta à obsessão de Paulo Saturnino Cunha por produzir vinhos com qualidade. É isso que o leva, e ao enólogo consultor da empresa, Mário Andrade, a guardar os vinhos em cave, pelo menos, três anos antes de os comercializar. É esse o tempo mínimo que as referências Antagonista e Protagonista, as de topo do portefólio da empresa, estão em madeira, nova e/ou usada, “que está presente, sem marcar o vinho, o que também tem a ver com o estilo do Mário Andrade”, informa o gestor.

Quanto a castas, são cerca de 20, com evidência para Verdelho, Arinto, Alvarinho, Fernão Pires e Malvasia Fina, que foi plantada o ano passado, nas brancas. Entre as tintas, refere Tinto Cão, Tinta Francisca, Sousão, Touriga Nacional, Touriga Franca, Alicante Bouschet, Ramisco e Baga. Ou seja, há uma grande panóplia de variedades para uma área não muito grande de vinha, com o intuito de disponibilizar uma oferta diferenciada.

“Um vinho, como nós o encaramos aqui, no Pinhal da Torre, não é um produto industrial”, defende, a propósito, Mário Andrade, acrescentando que é, sim exemplo de diferenciação, diversidade, “de uma conceptualização estética que implica ‘agarrar’ num solo, num clima, num sítio e interpretar isso de forma a ser reconhecido nos aromas e gostos do vinho que deitamos no copo e, de preferência, proporcionar prazer a quem o bebe”. E salienta que não é preciso fazer muito para isso acontecer.

 

Produzir uva pensando no vinho

Basta que a instalação da vinha tenha sido bem feita, adequada à produção de vinho e que “a sua nutrição obedeça a critérios enológicos, e não agrícolas”, que “não servem quando o objectivo do maneio da vinha é produzir uvas para vinho”. Para Mário Andrade, é necessário ir ainda mais ao pormenor, quando a finalidade é um vinho branco ou um vinho tinto, ou quando as castas são diferentes. “Se tenho um Aragonês e uma Trincadeira, estamos perante situações completamente diferentes, que implicam nutrir o solo para as condições mais adequadas à produção do vinho que queremos produzir, naquele terroir, a partir de cada uma das castas lá plantadas.” Depois é necessária alguma estratégia durante o ciclo vegetativo, para fornecer ar e luz à vinha e aos cachos. “Isto não significa luz directa nem correntes de ar, mas sim na medida certa conforme o ano”, explica o enólogo, acrescentando que é necessário ir adequando isso a cada ano vitícola.

Na produção de uva, o Pinhal da Torre segue um Plano Anual de Viticultura Biológica e Fertilização Sustentável, sem esquecer que as uvas têm de ser produzidas de forma a originar vinhos. “Para mim o papel da enologia começa no campo e acaba no copo do consumidor”, argumenta Mário Andrade. “Como a perfeição não existe e há contingências, vai-se tentando adaptar o caminho, tentando fazer o melhor possível”, assevera. Para o efeito, é importante que haja um bom planeamento na adega, de modo a “que as uvas sigam o seu processo natural na adega. Apenas é necessário fazer algum acompanhamento, provando os mostos durante a fermentação, para ver se fazemos mais ou menos maceração, de forma mais intensa ou menos, definir a altura de desencubar, juntar mosto de prensa ou separar e seguir isso naturalmente”, esclarece o enólogo.

“Apostarmos na produção de vinhos de qualidade numa região que não é fácil, como a do Tejo, e na criação de uma oferta variada e diferenciada em termos de preço e perfis de vinho, tem sido fundamental para nós e sente-se na forma como as pessoas reagem quando os provam”, diz, por seu turno, Paulo Saturnino Cunha. O gestor defende que ainda mantém o envolvimento, dedicação e esforço no negócio, “para não ser mais um. Quem prova os nossos vinhos, mesmo em provas comparativas, pode verificar isso”, continua o gestor, realçando o desempenho de Mário Andrade, cujo trabalho se afirma numa linha condutora, “uma identidade, que também se deve a usarmos apenas as nossas uvas para produzir os nossos vinhos”. O resultado desta acção traduz-se em, por vezes, em apenas três a quatro mil garrafas. “Apostamos na qualidade e não abrimos mão disso”, remata.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

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