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Quinta da Extrema: Vinhos de fronteira

By 7 de Outubro, 2021 Sem comentários

Estamos no Douro Superior, nas terras áridas e despovoadas que seriam um deserto não fora alguns produtores e investidores mais ousados e apaixonados pela região terem contrariado o destino. É exactamente na zona de fronteira entre o Douro e a Beira Interior que se situa o projecto das Colinas do Douro. As mais recentes propostas, três vinhos varietais da Quinta da Extrema, chegaram agora ao mercado.

Texto: João Paulo Martins
Fotos: Colinas do Douro

Quando se fala em zona fronteiriça entre Douro e Beira Interior, o que está em causa não são altitudes ou climas diversos. O que verdadeiramente separa as duas regiões é o solo. O xistoso Douro dá lugar à granítica Beira e isso faz toda a diferença. Se a isso associarmos os encepamentos originais de cada uma das zonas então percebemos melhor que se trata de dois universos. No Douro temos castas adaptadas ao calor e à secura – não esqueçamos que o Douro Superior tem um clima semi-desértico –variedades que podem gerar vinhos tensos, volumosos e ricos em taninos, cor e estrutura. Quando se está exactamente na fronteira podemos então jogar nessa diversidade. O projecto das Colinas do Douro cobre actualmente 110 hectares de vinhas, pensadas por Nuno Magalhães, professor universitário e sabidamente um dos nossos maiores especialistas em viticultura – que adaptou cada uma das castas plantadas à altitude e orientação das parcelas. Aqui estamos entre os 500 e os 650 m de altitude, com orientações solares diversas, sobretudo norte e poente. Isso já permite uma esquematização dos vinhedos, trabalhados também em função do objectivo final.

O projecto das Colinas do Douro, até pela dimensão que tem, está focado em vários tabuleiros: os que agora foram apresentados são vinhos de nicho, vinhos experimentais mas não são esses que fazem viver uma empresa desta dimensão que agrega quatro quintas. A marca Quinta da Extrema está vocacionada para os vinhos de topo, para as experiências e para os projectos especiais. As outras marcas são Colinas do Douro, Quinta da Pedra Cavada e Seixo Amarelo, as duas últimas vocacionadas para a chamada distribuição moderna, super e hipermercados. A marca Quinta da Extrema apenas poderá ser encontrada em garrafeiras ou lojas especializadas.

Desde a nossa visita há dois anos que a adega nova está em marcha mas, ao que nos dizem ainda não será para a vindima de 2021. Naturalmente que isto obriga a dispersão de pessoas e meios: armazém em Escalhão, cave de barricas perto da quinta do Grifo na margem norte e a uns bons quilómetros de distância.

O ano 2020, complicado para todos os produtores, acabou por ser compensador para as empresas que têm foco importante no off-trade. Com as vendas de supermercado a crescer, a empresa fechou o ano com um crescimento de 20%, o que é assinalável.

Quinta da Extrema

Provas e castas

Os encepamentos são os habituais na região mas aproveitou-se também para procurar inovar e tentar novas soluções. Foi assim que uma das clássicas da região – a Tinta Barroca – foi preterida, uma vez que está mais vocacionada para o vinho do Porto e introduziu-se as francesas Cabernet Sauvignon e Syrah. Nas brancas surgem, fora do baralho, a Encruzado e a Chenin Blanc, esta última característica de algumas zonas do Vale do Loire, em França.

Os vinhos agora apresentados assentam nos ensaios e experimentações feitos na Quinta da extrema, daí o nome Ensaios Extremes, e merecem algum enquadramento. Como nos disse Jorge Rosa Santos, o enólogo principal, estes vinhos não terão edição anual, dependerá do ano e, caso a caso, será tomada uma decisão. Tive oportunidade de provar os novos vinhos ainda “em bruto”, durante uma visita à propriedade há cerca de dois anos. Pelo número de garrafas produzidas percebe-se facilmente que foi feita uma selecção dos lotes, tendo resultado sempre menos quantidade engarrafada do que a indicação que nos foi dada na altura quando pude provar estes vinhos ainda em estágio de barrica. Por exemplo, do Tinto Cão apontava-se para 900 garrafas e do Tinta Francisca 3500, tudo bem acima do que agora acabou por ser comercializado. Na altura também se provou o Cabernet Sauvignon, um dos dois varietais de castas vindas de fora. Pode considerar-se o Cabernet uma curiosidade mas já em 2018 se mostrava com muita personalidade, apimentado e de taninos bem firmes. Com o clima que o Douro tem e as múltiplas orientações possíveis da vinha, difícil seria imaginar que aqui não se faria um bom Cabernet Sauvignon.

O vinho de Rabigato faz jus à sub-região do Douro Superior, onde esta casta – tardia e de muito boa acidez – melhor se manifesta, ainda que se encontre presente noutras zonas do Douro. Aqui optou-se por uma prensagem suave, uma decantação que se estendeu por 48 horas e uma fermentação que se iniciou no inox mas que depois foi continuada e terminada em barricas usadas onde fermentou entre 12 e 14 dias. Depois de terminada a fermentação o vinho estagiou na barrica mais 11 meses. Pela forma como é conduzida na vinha, com uma parede foliar muito boa que conserva a acidez, o vinho resulta com grande frescura. A vinha tem uma adubação em zebra – linha sim, linha não, método indispensável para fazer face a estes terrenos muito pobres em matéria orgânica. Basta olhar para a paisagem circundante para se perceber que aqui pouco nasce ou cresce se não tiver “alimento”. Conseguem-se produções de 5 toneladas/ha mas também aqui a opção foi por um engarrafamento parcial e apenas se encheram 1200 garrafas.

Quinta da Extrema

Pequenas quantidades

A Tinta Francisca é casta antiga na região e está agora a conhecer algum renascimento. São já vários os produtores que estão a apostar nela. Outrora era muito usada sobretudo para lotes de vinhos do Porto destinados ao envelhecimento. Aquando da visita de 2018 os vinhos ainda estavam em barrica e pensava-se então que poderiam ser feitas 3500 garrafas mas após o estágio optaram por apenas engarrafar 2800. Só têm 2 hectares desta casta que está situada a 600 m de altitude, com uma exposição poente. É uma casta tardia, de baixa acidez, com película fina mas, a favor dela, tem a produtividade que pode atingir a 7 toneladas/ha o que, para o Douro, se pode considerar muito bom. É mais uma casta que dá vinhos com pouca cor, médio corpo, álcool moderado, mas de taninos suaves e aromas terrosos, bem interessantes. Este vinho estagiou em barricas já com seis anos de uso.

Já o Tinto Cão é uva difícil e pouco consensual. Como nos disse Jorge, “só à quarta tentativa é que acertámos no melhor método para vinificar o Tinto Cão. Optou-se por uma maceração curta para evitar taninos demasiado fortes que tendem depois a ficar secos”. Provavelmente foi também por isso que, no final, foi apenas aproveitada uma barrica de 500 litros, de que resultou esta produção experimental. De maturação muito tardia, está instalada na cota mais baixa da quinta – 500m -, onde os cachos (pequenos) estão sempre ao sol. A película é grossa e origina vinhos com pouca cor, óptima acidez e taninos firmes. Depois da fermentação no inox durante três dias, o vinho acaba a fermentação já fora das massas. Foi depois para barrica e fez aí a fermentação maloláctica.

Os vinhos provados agora e os outros que já foram objecto de prova revelam um trabalho de grande precisão quer ao nível da vinha quer na enologia. Intervir quando é preciso, acompanhar a vinha para que possa produzir bons frutos. Os vinhos mostram isso mesmo e são belos representantes desta zona longínqua, extrema em todos os sentidos, e que permite fazer brancos e tintos que aliam a qualidade à personalidade.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2021)

  • Quinta da Extrema Ensaios Extremes
    Douro, Rabigato, Branco, 2019

    17.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Extrema Ensaios Extremes
    Douro, Tinto Cão, Tinto, 2018

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta da Extrema Ensaios Extremes
    Douro, Tinta Francisca, Tinto, 2018

    18.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
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