KOPKE GROUP: 2024, a doce subtileza de um ano Clássico

Os novos Vintage, com a chancela Kopke e Burmester, foram apresentados na Kopke Wine House, localizada na ribeira de Vila Nova de Gaia, paredes meias com a Calém, igualmente detida pelo grupo de Juan Carlos Escotet, a Kopke Group. Como anfitriões, tivemos Carlos Alves, diretor de enologia e viticultura, e Márcio Nóbrega, responsável pela viticultura, sob o olhar atento de Carla Tiago, enóloga dos vinhos do Porto.

A excecionalidade de 2024 resultou, e muito, da especificidade do ano vitícola, clássico em todos os sentidos no território duriense. O inverno caracterizou-se pela pluviosidade abundante; a primavera manteve a presença de algumas chuvas, mas foi o período que mediou entre o início de agosto e a vindima que determinou a singularidade deste ciclo – noites mais frescas que o habitual e uma maturação de puro equilíbrio. A partir de março de 2026, as declarações de um ano Vintage começaram a surgir, revelando, ao mercado, que, após um longo hiato, os grandes clássicos estavam de volta e, por maioria de razão, 2024 havia produzido a exemplaridade deste século.

Com o propósito de contextualizar e comparar com as edições de 2011, 2016 e 2017 da Kopke e Burmester, decorreu uma prova que veio a adjuvar e reforçar a singeleza desta dupla de Vintage. Para Carlos Alves, em termos climáticos, 2024 teve algumas semelhanças com 2021, ainda que 2024 tenham vingado noites amplamente mais frescas e um verão mais comedido. Se falarmos de prova, o diretor de enologia da Kopke elege o polémico ano de 2015, que o setor decidiu não considerar ano vintage, provavelmente pela menor estrutura – mas muito elevada elegância – dos vinhos. Por curiosidade, na Kopke, tendencialmente, aliam-se os anos vintage ao comportamento de excelência da Touriga Francesa. E 2024 cumpriu essa premissa, cumprindo esta casta tinta a sua missão definidora dos lotes dos vinhos aptos à designação vintage.

 

A excecionalidade de 2024 resultou, e muito, da especificidade do ano vitícola, clássico em todos os sentidos no território duriense

Kopke
Carlos Alves

O universo territorial do grupo

As quintas da Kopke constam nas três sub-regiões do Douro: a Quinta do Bairro, no Baixo Corgo, com 25 hectares e cada vez mais vocacionada para as castas brancas; a Quinta da Boavista e a Quinta de São Luiz, no Cima Corgo; e a Quinta do Arnozelo, no Douro Superior. No conjunto, são 250 hectares de vinha, ainda insuficientes para as necessidades de vinificação, motivo pelo qual existem protocolos duradouros de fornecimento de uva com cerca de 300 viticultores.

A Quinta do Arnozelo é a propriedade com maior área, possuindo 95 hectares de vinha, cabendo a restante paisagem ao amendoal, ao olival e às laranjeiras. É daqui que nascem os vinhos Burmester. Plantada nos anos 90 do século XX, tem como encepamento dominante a Touriga Francesa e a Touriga Nacional. Entretanto, na reconversão realizada em 2010, a Alicante Bouschet passa a conquistar maior área à custa da diminuição da Tinta Roriz. A Sousão também tem vindo a ganhar maior destaque e, numa perspetiva experimental, têm-se plantado variedades brancas, preferencialmente nas cotas altas, onde a temperatura é mais baixa.

Não obstante a exposição maioritariamente a este e norte, com declives menos pronunciados, as elevadas temperaturas são uma constante no verão, fator que se reflete no perfil dos vinhos do Porto e nos tranquilos. A vinificação é feita a partir de uva colhida parcela a parcela, definindo-se a vindima de acordo com o destino da uva, ou seja, se é para Porto ou vinhos DOC. O rigor é comprovado pelo registo exaustivo das datas, pela natureza dos trabalhos, pelo rendimento de cada parcela, pelo rumo das uvas e pela monitorização de quem executa cada ação. Esta compilação de dados permite não apenas criar um histórico detalhado de cada parcela, mas também definir os procedimentos de colheitas futuras de um modo mais exato.

 

Os 250 hectares de vinha são insuficientes, motivo pelo qual existem protocolos duradouros de fornecimento de uva com cerca de 300 viticultores

 

Por seu turno, os vinhos do Porto com a chancela Kopke, são oriundos da Quinta de São Luiz, situada no Cima Corgo, resultante da junção de cinco quintas, que, no seu tudo, favorecem da exposição maioritariamente virada a norte. Amplamente recortada, quase totalmente ocupada com vinha e dada a sua centralidade, e bons acessos, esta propriedade é o epicentro do desenvolvimento de vários estudos, alguns deles de âmbito internacional, designadamente referentes ao solo e à condução das plantas. O campo experimental foi delineado em 2016, privilegiando o estudo de castas semi extintas ou com atual pouca expressividade no Douro, designadamente as que foram descobertas e catalogadas nas vinhas velhas.

A nova filosofia implementada na Kopke é diametralmente distinta da tendência vigente de afunilamento das opções de castas para a vinificação. De modo a promover uma crescente diversidade, o grupo aposta em experiências centradas em microvinificações, para melhor compreender o potencial das castas a incluir em lotes futuros, promovendo a diversidade ao invés de uma quase uniformização do perfil dos vinhos. Carlos Alves insiste na necessidade de preservação de um património genético de diversidade de castas ainda existente no Douro. Na verdade, muitas destas variedades foram esquecidas e rejeitadas em estudos vitícolas realizados nos anos 80, cujo foco estava apenas em cinco castas, o que causou, em muitos casos, no quase desaparecimento de muitas variedades ancestrais, as quais estão, agora, em processo de recuperação.

As próprias alterações climáticas absolutamente inegáveis obrigam a repensar o encepamento, precavendo o futuro no que à produção de Vinho do Porto diz respeito, dando maior relevância às castas que aportam acidez aos vinhos, tão necessária numa região onde imperam variedades com rápida degradação dos ácidos por força das temperaturas cada vez mais elevadas.

O ano Vintage da Burmester e da Kopke

Os vinhos do Porto Burmester exibem uma marca identitária muito própria, que não é alheia à sua origem no Douro Superior. Se até há alguns anos imperava a trilogia Touriga Nacional, Touriga Francesa e Tinta Roriz, entretanto, passou a entrar na equação a, cada vez mais plantada no Douro, Alicante Bouschet, a conferir-lhe mais corpo e concentração. De um modo geral, os Burmester caracterizam-se pelas intensas notas florais e muita concentração de cor, com fruta já bastante compotada.

 

O grupo aposta em experiências centradas em microvinificações, para promover a diversidade ao invés de uma quase uniformização do perfil dos vinhos

 

No Kopke Vintage 2024, há toda uma outra singularidade, decorrente de dois fatores essenciais: a maior frescura da sub-região do Cima Corgo, aliada às características do ano vitícola, e a presença de vinha velha em 75% do lote. O perfil é mais profundo, ainda em contenção aromática, mas com uma exibição de perfeição espantosa, resultante dos múltiplos cuidados inerentes a uma vindima feita por etapas na vinha velha, de modo a colher cada uva no seu mais completo e equilibrado estado de maturação.

Há uma unanimidade perfeitamente justificável na declaração de 2024. Os vinhos, tão jovens e cheios de vida, são notáveis no presente e auguram um enobrecimento em garrafa que lhe perspetiva provas de sonho.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

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