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Um brinde à elegância

Todos sabemos que a Bairrada produz grandes vinhos, com muita personalidade e longevidade. Pela sua exclusividade e custos de produção elevados, não é uma região vocacionada para vinhos baratos. O caminho pode e deve ser outro. Mas consegue ainda assim oferecer vinhos com qualidade e elegância a preços competitivos, sem sacrificar a identidade regional.

TEXTO Dirceu Vianna Junior MW
FOTOS Ricardo Palma Veiga

Para muitos a Bairrada continua sendo uma região misteriosa. É um desafio conseguir penetrar os seus segredos e desfrutar do encantamento de seus vinhos, cuja produção está documentada desde o período da civilização Romana.
Esta região rica em valores históricos e culturais situa-se entre dois importantes centros urbanos do país, Coimbra e Aveiro. É banhada ao norte pelo Rio Vouga e ao sul pelo Rio Mondego. No seu poente, encontram-se as areias das praias da Costa Nova, de Mira e da Figueira da Foz, e para a nascente as montanhas do Caramulo e do Buçaco. Grande parte de seus vinhedos estão localizados num verde planalto com leves ondulações entre o mar e a serra. A Bairrada tem um clima ameno com notável influência marítima. Chama a atenção devido à acentuada amplitude térmica que na época da colheita pode atingir 20ºC de diferença entre o dia e a noite. Essa forte influência marítima frequentemente impõe desafios devido ao excesso de chuva, entre 800mm e 1200mm, que em certos anos ameaçam a região durante a Primavera, mas principalmente na época do final do ciclo vegetativo, no início do Outono. Os solos mais adequados à vinha, principalmente de uvas tintas, são os solos argilosos com maior ou menor presença de calcário. Existem também solos de aluvião, xisto, quartzitos e solos arenosos propícios para uvas brancas e estilos de vinhos tintos mais leves.
A Bairrada possui longa tradição na produção de vinhos elaborados a partir de sua principal casta, a Baga. Outro diferencial pertinente é o facto de grande parte dos vinhedos de Baga na região possuírem 50 anos de idade ou mais. A Bairrada é certamente um dos locais mais desafiadores em Portugal para a produção de vinhos, especialmente tintos, por depender fortemente de uma variedade que possui um ciclo de crescimento longo, aliado a um clima imprevisível. A Baga na Bairrada é tão difícil de lidar quando o Pinot Noir na Borgonha. A verdade, porém, é que grandes riscos são frequentemente acompanhados de grandes recompensas, pois quando a natureza colabora e as uvas são vinificadas por mãos competentes, os resultados muitas vezes são fenomenais.
Existem, porém, métodos distintos e inúmeras alternativas incluindo a selecção de castas nos lotes, uso de engaço, técnicas de extração, e estágio em carvalho ou não. Estilos tradicionais, como o Quinta das Bágeiras Garrafeira, são vinificados em lagar aberto e sem desengace, envelhecidos em tonéis de madeira de grande porte e compostos unicamente pela casta Baga. São vinhos formidavelmente estruturados e exigem certo tempo de envelhecimento para revelar seu potencial. Por outro lado, uma abordagem moderna opta por eliminar ou utilizar apenas uma pequena percentagem dos engaços como é o caso da Niepoort na elaboração do seu rótulo Poeirinho, que tende a ser mais acessível e fácil de apreciar mais cedo, sem exigir um longo processo de envelhecimento em tonéis ou barris de madeira. A percepção de que a casta Baga é excessivamente adstringente e de que necessita de muito tempo para que seus taninos fiquem suaves é indevidamente generalizada e frequentemente mal compreendida.

Estilos muito diversos
Além de Baga, desde 2003, estão oficialmente permitidas uma multiplicidade de castas para elaboração de vinhos tintos incluindo Alfrocheiro, Aragonez, Bastardo, Camarate, Castelão, Jaen, Touriga Franca, Touriga Nacional e também Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah, além de outras, que podem aparecer em lotes nas mais variadas proporções. Por esse motivo, os vinhos tintos da Bairrada, actualmente, denotam uma variação desconcertante de estilos. Se isso, por um lado, revela diversidade, por outro, gera muita confusão. E esta é uma das principais razões pela qual a compreensão dos vinhos da região escapa à maioria dos críticos internacionais, sem falar dos consumidores. Embora os estilos sejam diversos, o futuro que os vinhos tintos da Bairrada devem trilhar é bem mais claro: a região precisa focar-se na elaboração de vinhos de alta qualidade e onde a Baga desempenha papel dominante. Mário Sérgio, proprietário e enólogo da Quinta das Bágeiras, acredita que esse é o caminho para conseguir notoriedade nacional e internacional. Na opinião de João Póvoa, proprietário do projecto Kompassus, é preciso reunir condições para que seja possível efectuar uma rigorosa classificação e ordenação dos solos segundo a sua capacidade vitícola, para que no futuro os produtores possam ostentar no rótulo essa diferenciação.

Uma opinião válida desde que o produto tenha características organolépticas distintas. Esse pensamento segue a tendência de outras regiões como Marlborough, na Nova Zelândia e Mendoza na Argentina que, apesar de mais jovens, já estão se adiantando nesse aspecto. Com olhos no longo prazo, essa diferenciação certamente irá ocorrer em muitas regiões produtoras e a Bairrada não deveria ficar para trás.
Além disso, na opinião de Mário Sérgio, um dos principais perigos que a região enfrenta actualmente, é julgar que a visibilidade atingida pela casta Baga seja suficiente para pensar que já está quase tudo feito. Na verdade, ainda existe um trabalho muito importante a ser realizado. Um dos principais desafios, de acordo com João Póvoa, é a comunicação, que precisa ser feita de forma mais dinâmica, direcionada à um público mais jovem e com forte aposta no marketing digital. Em termos de comunicação, além de afirmar a qualidade dos vinhos brancos (de grande mineralidade, salinidade e longevidade) é preciso divulgar os atributos positivos dos espumantes, especialmente Blanc de Noirs e Rosé, e logicamente os tintos elaborados com a casta Baga que são únicos e raramente surgem em outras regiões. São vinhos elegantes e gastronómicos, mas sobretudo inimitáveis.
É geralmente aconselhável colocar as coisas em ordem antes de iniciar um programa de comunicação e marketing, mas no caso da Bairrada esse conceito deve ser ignorado, pois a região já conta com produtos de qualidade, enólogos respeitados e boa diversidade nos seus produtos. Porém, ao contrário do que muitos pensam, a Bairrada, com poucas excepções, não é propriamente uma região conhecida internacionalmente. Basta examinar a oferta de importadoras e cartas de restaurantes na Inglaterra, Alemanha, China ou Estados Unidos. Quando é possível encontrar um vinho da região, geralmente estão na carta devido à dedicação e ao trabalho de uma minoria de produtores que viajam incansavelmente para construir suas marcas. Encontram espaço devido à boa qualidade de seus produtos e permanecem na carta devido a uma forte relação forjada entre o produtor e os seus clientes ao longo do tempo. Nesses casos, a identidade da região não é o factor determinante para o comprador.

Pagar o preço justo
Agora é o momento para a região se unir, demonstrar confiança e agir, pois a tendência na busca por vinhos opacos, super encorpados e ultra concentrados já começou ceder espaço a vinhos com mais harmonia, pureza e que demonstram originalidade. Será a descoberta do potencial que a região possui que irá gerar maior procura, preços mais altos e consequentemente ajudará ao seu impulsionamento. Os produtores precisam e merecem obter um preço justo pelo seu trabalho.
A Bairrada é uma pequena região onde a economia de escalas é um desafio. A região precisa valorizar mais o trabalho dos seus pequenos viticultores. Não faz sentido apostar na qualidade dos vinhedos quando o preço da uva não atinge o valor pago por um quilo da casta Airén em La Mancha, um valor excessivamente inferior ao preço pago por um quilo de uva na região de Champagne que na última safra ultrapassou seis euros.
Preço justo é vital para que a mão de obra do sector vitivinícola seja protegida, bem como os vinhedos velhos de Baga que devem ser preservados para evitar que seja, substituídos por variedades internacionais como Merlot, Syrah e Cabernet Sauvignon. Não faz sentido vender matéria prima por um preço baixo a empresas que não tem intenção de ajudar reforçar a imagem da região.
O que actualmente auxilia países como o Chile e Austrália a melhorar sua imagem junto de profissionais e consumidores é o trabalho que está sendo feito por uma geração de enólogos jovens que buscam matéria prima de pequenas parcelas, vinhedos velhos, demonstram a sua criatividade elaborando vinhos com personalidade e excelente qualidade, e contam a sua história com convicção. Nesse caso, como o volume de produção é restrito, a distribuição é feita por empresas de menor porte que realmente se preocupam em vender produtos de qualidade e contar a história, ajudando assim o produtor e a região a construir uma boa imagem. Esse é o caminho que deve ser trilhado pelos produtores da Bairrada, que não anseiam vender grandes volumes, mas sim oferecer produtos autênticos, de qualidade, a preços justos. A região necessita imperativamente atrair jovens vitivinicultores, com boa formação e ambição para ajudar com esse trabalho.
A Bairrada é uma região produtora de vinhos rica de história. Conta com excelentes vinhos e precisa urgentemente comunicar isso sem timidez, com energia e fazer esse trabalho em conjunto. O que a maioria dos profissionais e consumidores estão buscando actualmente são vinhos mais autênticos, com harmonia, e a Bairrada oferece vinhos que esbanjam elegância e frescura que vão justamente ao encontro dessa tendência.
Não tenho dúvidas que, no futuro, a região deverá preocupar-se menos com a quantidade e valorizar a qualidade acima de tudo. A lista de vinhos que agora provei inclui vinhos de produtores respeitados, mas propositadamente não são os seus topo de gama, em muitos casos são os vinhos de entrada. Por esse motivo podem até não representar o que a região deve aspirar a ser no futuro. Mas são vinhos que oferecem excelente custo e benefício e servirão para atrair consumidores, ajudando-os entender que os vinhos da Bairrada são únicos: vibrantes, frescos, elegantes, e gastronómicos. A Bairrada continua sendo uma região misteriosa para muitos consumidores, mas chegou o momento de o mundo descobrir os seus segredos e brindar à elegância que os vinhos da região tem para oferecer.

Em prova
  • Marquês de Marialva
    Bairrada, Baga, Reserva, Tinto, 2014

    15.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Luís Pato
    Regional Beira Atlântico, Baga e Touriga Nacional, Tinto, 2015

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Casa de Saima
    Bairrada, Reserva, Tinto, 2015

    15.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Sidónio de Sousa
    Bairrada, Reserva, Tinto, 2015

    16
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Aliança
    Bairrada, Reserva, Tinto, 2017

    15.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta do Valdoeiro
    Bairrada, Tinto, 2013

    15.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Kompassus
    Bairrada, Tinto, 2014

    16
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Quinta das Bágeiras
    Bairrada, Reserva, Tinto, 2016

    16
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Termeão (Pássaro branco)
    Bairrada, Tinto, 2015

    16
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº22, Fevereiro 2019

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