Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 – 898 a.C.), a palavra do grego ethos significa originalmente morada, seja o habitat dos animais, seja a morada do homem, lugar onde ele se sente acolhido e abrigado. Séculos mais tarde Martin Heidegger (1958) recupera e aprofunda os ensinamentos de Homero, defendendo que o ethos é o campo aberto da morada do homem, onde o Dasein (o ser humano) se relaciona com o Ser.
A célebre frase de Heidegger “a linguagem é a casa do Ser” completa o sentido de ethos. O homem mora habitando essa casa através do pensamento e da poesia… e não houve alguém que disse um dia que “um bom vinho é poesia engarrafada”?
Muito resumidamente, no pensamento de Heidegger, o ethos é a dimensão existencial e poética em que o ser humano habita e protege o Ser, situando-se autenticamente no mundo. O segundo sentido, proveniente deste, é costume, modo ou estilo habitual de ser. A morada, vista metaforicamente, indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. Assim, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído.
Para os filósofos gregos, especialmente Aristóteles, o ethos está diretamente relacionado ao nosso modo de ser, enquanto na cultura romana, a ideia de moral vem de moralis, que significa costume. Desta maneira, ethos é o nosso carácter e moral é um conjunto de normas de convivência que regulam o nosso comportamento. A partir da ideia de ethos estabelece-se a base da ideia de ética, ou seja, a reflexão sobre o nosso modo de vida. Enquanto a moral tem uma dimensão normativa e se baseia num conjunto de regras concretas, a ética é uma avaliação ou reflexão sobre as questões morais.
Na cultura grega, o ethos individual pode ser forjado com disciplina, já que vamos formando um ethos com os nossos hábitos. Em compensação, a ideia de phatos refere-se à paixão e à emoção; por outro lado, o termo logos faz referência à ideia de razão e linguagem.
Para Aristóteles, os três elementos intervêm na comunicação, a célebre retórica aristotélica, concebida como aperfeiçoamento da tese platónica de que a simples exposição ao conhecimento seria suficiente para conquistar uma audiência. Em discordância com o seu mentor Platão, Aristóteles acreditava que a retórica seria fundamental para conquistar o público.
É, pois, deste modo, que surgem o ethos, o pathos e o logos como meios de potenciar a capacidade de persuasão de um público. O primeiro refere-se à capacidade de o atingir, com base na ética, integridade e credibilidade do orador; o segundo alude à capacidade de apelar às emoções e à criação de empatia entre o orador e a audiência; e o terceiro sugere a utilização de argumentos racionais, de evidências e do raciocínio lógico.
Assim, muito resumidamente, transmitimos ideias com o nosso modo de ser, enquanto através do pathos individual expressamos emoções, e tudo está articulado pela razão e pela linguagem.
Família e herança
Da mesma forma, numa obra de arte, podemos encontrar um ethos, um pathos e um logos, isto é, uma personalidade, uma emoção e uma linguagem. É precisamente o que encontramos nos vinhos Ethos, da Beira Interior. A Ethos Wines é sobre vinho, mas também é sobre família, herança e sobrevivência nesta região selvagem e remota do centro de Portugal. Desde 2018, que Tiago Mendonça cultiva 12 hectares de vinha no concelho da Guarda, pertencente à região vitivinícola da Beira Interior.
Este é mais do que um projecto para Tiago Mendonça. É um verdadeiro trabalho de paixão e tradição. Tem raízes familiares profundas que o ligam a esta terra, pois os pais eram naturais da região. As férias de infância eram passadas com a família materna, na Quinta de São Lourenço, inserida no magnífico Vale do Mondego, dentro do Parque Natural da Serra da Estrela, na região da Guarda. Hoje, é frequentemente acompanhado pelo seu filho mais novo, Francisco Mendonça, que tem um gosto especial por trabalhar ao lado do pai.
As vinhas da Ethos Wines estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres, a uma altitude entre os 480 e os 520 metros. A vida das videiras aqui é exigente, com grandes amplitudes térmicas diurnas e níveis elevados de precipitação. Mais de 70% das vinhas têm mais de 60 anos, tendo algumas sido replantadas em 2012; e cerca de 50% está em co-plantação de castas tradicionais, a par com o decurso do trabalho de identificação das várias variedades presentes.
As castas são as tradicionais da região. Nos brancos encontramos Síria, Arinto, Tamarez, Malvasia Fina, Gouveio, Cerceal e Ferral. Nos tintos destacam-se a Rufete, a Mourisco, a Jaen, a Baga, a Trincadeira, entre outras. A viticultura está nas mãos do agrónomo Carlos Veiga, enquanto na adega, a enologia é acompanhada pela enóloga Mariana Salvador, cuja missão é interpretar as uvas de forma a reflectirem verdadeiramente a identidade da Beira Interior. A função de Mariana Salvador consiste em equilibrar o acompanhamento rigoroso da vinificação e do estágio. As leveduras são indígenas e os níveis de sulfuroso são mantidos no mínimo indispensável.
As vinhas estão certificadas em modo biológico desde 2020. A certificação biológica dos vinhos está prevista a partir da colheita de 2025. O trabalho na vinha e na adega é o que dá origem aos brancos minerais intensos e frescos, bem como aos tintos elegantes, gastronómicos e com excelente capacidade de envelhecimento.
Mas Ethos não é só vinho, também é azeite. Há mais de 20 anos que a família é proprietária de um lagar onde são produzidos alguns dos melhores azeites não só da região, mas do mundo, tal como comprovam os múltiplos e variadíssimos prémios obtidos. As azeitonas são colhidas de oliveiras com idades até 100 anos, incluindo variedades locais.
As vinhas estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres e mais de 70% ultrapassam os 60 anos
Acima de tudo, o projeto Ethos assenta num profundo respeito pela tradição e pelo terroir. A equipa demonstra-o e disso mesmo nos deu conta – uma determinação firme em revelar o potencial da Beira Interior, uma pequena região emergente que tem vindo a conquistar cada vez mais reconhecimento através da produção de vinhos distintivos e de azeite de classe mundial.
E Ethos é igualmente arte… por fora. O rótulo do Ethos Rufete tinto 2023 e do Ethos Vinho de Parcela tinto 2023 comprova este preâmbulo, através da assinatura de Ana Malta, artista plástica com formação académica em pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e um mestrado em Gestão de Indústrias Criativas pela Universidade Católica do Porto. Ambos os rótulos denotam a prática artística associada à estética, onde as cores e os padrões se cruzam com contrastes e a inquietante expressão visual da artista. Personalidade, emoção, linguagem. Ethos, pathos, logos. Beira Interior, Tiago Mendonça, Ethos Wines.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)













