A história recente do Douro, no que a vinhos DOC diz respeito, é conhecida, mas não só merece que a ela voltemos, como serve de explicação para a nossa principal conclusão. Já lá iremos. É um Douro moderno, que começou, timidamente, nos anos 90 do século XX, ou seja, há pouco mais de três décadas, com o aparecimento de produtores e marcas a aproveitar parte das uvas, anteriormente destinadas ao Vinho do Porto, para elaborarem vinhos tintos singulares.
Sim, existia um punhado de marcas anteriores, das quais sempre resultou a ideia de que esta região poderia vir a fazer mais e melhores tintos tranquilos – Reserva Ferreirinha, Quinta do Côtto, Quinta do Confradeiro, Quinta da Pacheca –, mas referências, hoje clássicas, como Duas Quintas, Redoma, Quinta da Leda, Quinta da Gaivosa e Quinta do Crasto, surgiram apenas na primeira metade dessa década de noventa. Pouco depois, seguiu-se a estreia de outras marcas que se tornaram igualmente emblemáticas, como Quinta do Vallado, Quinta de Roriz e Quinta Vale D. Maria, entre outros.
Foi a chegada do novo milénio e a primeira década de 2000, que serviram de contexto para a explosão do DOC Douro, sempre com ênfase em tintos, por regra, robustos e concentrados. Tratou-se de uma época de grande crescimento económico, alimentada por uma nova moeda, fundos europeus e uma crescente abertura ao exterior, durante a qual muitos, no Douro, passaram a optar por vindimar uva para produzir vinhos tranquilos. A tendência que já se verificava em relação ao decréscimo do consumo e venda de Vinho do Porto (tirando um ou outro fenómeno comercial alicerçado numa grande colheita, como a de 2000 ou 2003) acelerou a transição no vale do rio que empresta o nome a este território vitivinícola, onde a vinha era praticamente uma monocultura.
Se a tudo isto juntarmos mais do que uma fornada de enólogos talentosos, quase todos residentes (nem que seja por alguns anos) na região, algo pouco habitual nas anteriores gerações, a descoberta recente dos vinhos brancos em altitude, e a confirmação de um enoturismo de gama alta, temos todos os ingredientes que nos conduziram à situação atual.
E que situação é essa? Uma imensidão de vinha – alguma a ser arrancada por estes dias, tamanha é a abundância –, centenas de marcas, milhares de produtores e muitas dezenas de enoturismos de qualidade superior. Atualmente, contabilizam-se mais de 60 milhões de garrafas DOC, vinhos esses responsáveis pelo processamento de mais de metade da matéria-prima produzida na região. O colapso das vendas do Vinho do Porto, com o registo de descida de 34% desde 2000, e a ausência de medidas, como o ‘benefício’ (goste-se ou não do ‘benefício’), para o DOC Douro, fez com que houvesse, no presente, um excesso sistémico de uvas no Douro, sendo o preço pago aos agricultores quase sempre abaixo do custo de produção (calculado entre €0,95 e €1,50), custo este justificado pela viticultura de montanha e baixa produção das vinhas.
No entanto, aquilo que é um pesadelo ao nível de modelo económico e social faz com que não faltem bons vinhos DOC no Douro. Aliás, estamos certos de que nunca houve um período com tão bons DOC do Douro e Vinhos do Porto como neste em que vivemos.
Qualidade inquestionável
Nesta prova, reunimos mais de 50 referências vínicas. Grande parte são verdadeiros topos das respetivas gamas, provenientes das três sub-regiões do Douro (Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior). Como temos vindo a escrever, com tanta uva, e tanta uva boa, não admira a qualidade com a qual nos confrontámos. Aliás, a par de Bordéus e Rioja, o Douro é, hoje, uma das regiões do mundo com maior número de produtores de excelência e de vinhos verdadeiramente brilhantes. Muitas regiões existem, é certo, com vinhos únicos, e algumas regiões produzirão os melhores do mundo, mas no Douro atual são várias as dezenas de referências, cuja qualidade é inquestionável sob qualquer padrão.
A confirmá-lo, tivemos no nosso painel cerca de 40 vinhos com pontuações acima de 18 e não faltou muito para termos quase uma dezena com 19 e 19,5 de pontuação. Em suma, os números falam por si e há poucas regiões como esta!
Porém, ainda existem grandes desafios. Por um lado, salvar os agricultores e reerguer um novo modelo económico, por outro, consolidar as boas marcas existentes, aumentar o seu valor e ampliar a projeção junto dos mercados internacionais. Sobre esta matéria, foi importante analisarmos, mais uma vez, perfis diferentes, de vinhos e de produtores, apesar da consistência da qualidade. Quase sempre com base em vinhedos com bastante idade, encontrámos evidentes nuances nos vinhos provados, mesmo considerando as diferentes colheitas em prova.
Mantém-se aqueles em que a personalidade das vinhas, anteriormente para Vinho do Porto (importa não esquecer), vinga quase sem maestro num produto intenso, profundo e de tanino vigoroso e saboroso. De um lado, há vinhos de absoluto pormenor, feitos a partir de uva vindimada em parcelas inferiores a um hectare e esculpidos pela enologia até ao último detalhe. E vislumbramos outros também, mais experimentais, aqui e ali, com alguma casta esquecida (ou até estrangeira), elaborados com fermentação das uvas em cachos intactos, à procura por menor extração ou maior frescura.
Tudo isto é Douro, desde que, em todos os seus matizes, cheirem e saibam a Douro. Cheirem e saibam a fruta madura condimentada com urze e esteva, a chá earl-grey da Touriga Nacional, a rosas da Touriga Franca, a fruta abundante da Tinta Roriz, sem esquecer a magia caleidoscópica dos lotes com dezenas de castas misturadas.
Que o Douro é, presentemente, uma das regiões favoritas dos consumidores nacionais, ninguém tem dúvidas. Que os seus vinhos estão entre os mais valorizados no país, também. Contudo, é preciso caucionar que o necessário arranque de vinhas não faça desaparecer patrimónios vitícolas únicos, que as populações sejam recompensadas pelo legado das vinhas velhas, cuja presença no território tem garantido, e que sejam ainda mais – e não menos – os vinhos verdadeiramente excecionais desta excecional região. No que a nós diz respeito, foi um privilégio prová-los a todos.
(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)
*Nota: a ordem das garrafas é aleatória
-

Quanta Terra Manifesto
Tinto - 2018 -

Pala Pinta
Tinto - 2020 -

Menin Maria Fernanda
Tinto - 2021 -

La Rosa
Tinto - 2023 -

Duorum Vinha das Abelhas
Tinto - 2022 -

Dona Berta Vinhas do Avô
Tinto - 2022 -

Chryseia
Tinto - 2022 -

Vinha da Granja
Tinto - 2021 -

Proibido Vinha Velha do Pombal
Tinto - 2022 -

Pintas
Tinto - 2023
-

Plenitude
Tinto - 2023 -

Pai Horácio
Tinto - 2021 -

Oboé Som de Barrica
Tinto - 2021 -

Margem
Tinto - 2023 -

Bela luz
Tinto - 2023 -

Duas Quintas
Tinto - 2023 -

Quinta do Crasto
Tinto - 2018 -

Quinta Nova Vinha Centenária Ref.ª P28/P21
Tinto - 2021 -

Quinta de São Luiz Vinha da Rumilã
Tinto - 2019 -

Quinta da Leda
Tinto - 2022
-

Quinta do Vesúvio
Tinto - 2022 -

Quinta do Portal
Tinto - 2020 -

Quinta do Côtto
Tinto - 2020 -

Quinta do Couquinho Adeodato
Tinto - 2019 -

Quinta do Bronze
Tinto - 2017 -

Quinta de S. José
Tinto - 2020 -

Quinta da Romaneira
Tinto - 2020 -

Quinta da Extrema Edição III
Tinto - 2017 -

Quinta da Gaivosa
Tinto - 2022 -

Potier
Tinto - 2022
-

Quinta da Ervedosa
Tinto - 2022 -

Poças Vinha do Cerro
Tinto - 2023 -

Herédias + 130
Tinto - 2021 -

Grau Baumé
Tinto - 2018 -

Costureiro Special Edition X
Tinto - 2020 -

Cerval
Tinto - 2019 -

Vallegre Field Blend Author
Tinto - 2017 -

Três Bagos
Tinto - 2019 -

Quinta Vale D. Maria Vinha da Francisca
Tinto - 2022 -

Quinta dos Frades Comendador Delfim Ferreira
Tinto - 2015
-

Quinta de Porrais
Tinto - 2019 -

Quinta da Folgosa Velha
Tinto - 2017 -

Cortes do Reguengo
Tinto - 2020 -

Quinta das Brolhas
Tinto - 2018 -

Vale Moreira Vinha d’Arte
Tinto - 2018 -

Terras do Grifo Vinhas Velhas
Tinto - 2018 -

Santos da Casa
Tinto - 2022 -

Quinta da Pedra Alta Melhor Tinto
Tinto - 2020 -

Quinta da Sabordela
Tinto - 2020 -

Quinta da Rede
Tinto - 2017











